quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Internacionalização da Amazônia - Cristovam Buarque

Durante debate ocorrido no mês de Novembro/2000 em uma Universidade nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT), foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta; que segue:


"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a   internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo e risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado.

Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveriam  pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!"

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Resolvi começar com esta brilhante resposta do nosso grande Cristovam, porque foi um dos textos que me marcou muito. O li ainda quando estudava no pré-vestibular "PUPT" (Projeto Universidade Para Todos) e desde então me tornei fã deste cara.

No entanto, o tempo sempre cuida de ser revelador em muitos aspectos e, na maioria das vezes, quando prestamos a devida atenção ao "Sr. Tempo", este nos agrega incontáveis grandes coisas.

Vejam, amigos, que a palestra em que Cristovam forneceu esta resposta ao tal estudante foi em novembro do ano 2000; ou seja, já se foram 12 (doze) anos e a Amazônia continua nossa, porém cada vez menos nossa, já que existe cada vez menos Amazônia!

O que diriam ao jovem estudante pessoas como Chico Mendes, irmã Dorothy Stang, José Cláudio e sua esposa Maria do Espírito Santo (todos mortos em nome de um ideal)? Será que não defenderiam a internacionalização?

Talvez esta não seja a solução, mas que a beleza do texto de Cristovam se perde cada vez mais no tempo, em decorrência do DESCASO brasileiro com a Amazônia, isso é inegável...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Agradecimento aos Amigos



É com enorme satisfação que informo aos amigos que, mesmo tardiamente, resolvi seguir as sugestões de alguns de vocês, no sentido de que eu criasse um blog para escrever sobre assuntos que julgar relevantes e, com isso, dar a oportunidade de que se desenvolvam debates interessantes, coerentes e, sobretudo, frutíferos acerca da seara jurídica.

O blog não pretende ser um espaço de pura verbalização de pensamentos jurídicos exclusivamente meus, mas, verdadeiramente, pretende-se também que este reproduza (fiel ou parafraseadamente) textos/matérias relevantes para nosso cenário de estudo.

O título do blog se explica em sua dupla função: a) funcionar como mecanismo de argumentação sobre o direito à luz do pensamento da esquerda (e também da direita, pois isso é dialética; isso é esquerda! - risos); e b) emergir temas em que o direito foi posto à esquerda (ignorado), em detrimento de favorecimentos variados, no sentido de tentar fazer com que, no debate, seja alcançada a tomada de consciência.

Se isto será possível eu não sei; mas se há duas coisas que considero verdade, essas são: 1 - que viemos a este mundo para fazer a diferença; e 2 - que ainda que supostamente não consigamos fazer a diferença esperada, a persistência no "tentar", importa na relativização do termo "conseguir". Uma das minhas tentativas está justamente aqui!

Assim sendo, estão abertas as rodadas de debate! (risos)

Quaisquer sugestões de temas a se discutir serão muito bem vindas.

Grande abraço do amigo,

Diêgo Morellato Cardozo.